terça-feira, 1 de novembro de 2016

O cinema com o olhar sobre a nova sociedade brasileira



Dois grupos partidários se revezaram no poder nos últimos 15 anos e transformaram bruscamente o contexto político nacional, com a turbulenta guerra ideológica, que dividiu socialmente a população em dois extremos.

E a arte, neste caso a sétima arte, com seu importante papel de demonstrar sensibilidade, com um olhar humanista adequado para a nova situação que nos encontramos, vem trazendo às telas obras primas que marcam este novo tempo, esta nova sociedade brasileira.

É muito bom ver o cinema nacional produzindo obras importantes com grande fôlego, assumindo uma postura contundente e com forte apelo sobre a atual realidade cotidiana na qual estamos inseridos. Dois filmes me chamaram muito à atenção ao retratar a nova faceta do país. “Que Horas Ela Volta?” e o mais recente “Aquarius”. O primeiro, conta a história de uma aluna nordestina, que almejando chegar à universidade pública, muda-se para São Paulo e vai morar na casa dos patrões de sua mãe, o que gera situações inusitadas e dá margem a uma importante reflexão, sobre a nova emersão da classe menos favorecida. Há 20 anos era quase impossível uma estudante pobre buscar o crescimento intelectual e se colocar no mesmo patamar da classe média, com as mesmas oportunidades.

É através deste fenômeno social, desta mudança que o filme se sustenta e, subliminarmente, desperta à atenção do público ao revelar um novo cenário brasileiro. Trata-se de um filme aparentemente comum, mas surpreendente em termos de conteúdo. Acerta na mosca, ou melhor, na ferida, causando comoção ao abordar uma mera situação, compatível com todo esse novo painel desenhado pelo poder, pela política e pelos governos polarizados que vivenciamos nos últimos tempos.

Já “Aquarius” traz um enfoque diferente, mas também atual. Ganância de grandes construtoras, influências politicas e a força do capital, contra a preservação da memória, da manutenção do romantismo artístico, da arquitetura antiga, e no confronto entre tecnologias novas e velhas, do disco vinil e o MP3. Sônia Braga é Clara, uma jornalista aposentada, viúva, e mãe de três filhos. Em seu apartamento antigo, onde mora sozinha, de frente com a praia de Boa Viagem no Recife, ela guarda recordações com sua coleção de discos, álbuns de fotografia e livros. O prédio onde mora a personagem principal está na mira de uma empreiteira, a qual compra todos os apartamentos menos o de Clara, que insiste em permanecer no imóvel e nega qualquer proposta do jovem empreendedor Diego, que pretende construir um novo prédio no local. “Quando não gosta é velho, quando gosta é vintage”, a frase de efeito de Clara é lançada à sua filha, quando ela tenta convencer a mãe a vender o AP. O filme se aproxima de um painel completo do Brasil, ao abordar família, arte e política e retrata delicadamente um resquício de coronelismo nordestino, de como a classe dominante arquiteta seus planos para atender seus interesses.

O Fla x Flu político fica distante da realidade quando cega grande parte da população para as mazelas atuais e os avanços que os brasileiros conquistaram. Produções cinematográficas tão valorosas tiram os tampões dos nossos olhos e é capaz de fazer refletir e entender como a sociedade sofre e se desenvolve ao longo dos anos. O Cinema como elemento educacional é capaz de nos trazer exatamente para o centro da nossa verdadeira identidade, mostrando onde é possível evoluir e como é primordial combater o interesse individual, e construir uma nova nação com senso social crítico e coletivo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Antes do Amanhecer

Uma numerosa e eclética filmografia traduz o olhar humanista do diretor americano de cinema Richard Linklater, que se debruça sobre meras situações cotidianas que se transformam em excelentes histórias, pois fisga a empatia do público para com os personagens, características que fazem dele um cineasta de peso.

A simples observação em deixar os atores improvisarem alguns diálogos, mostra o dom de Linklater de escolher muito bem o elenco. O casal que passa um dia juntos num encontro inusitado num vagão de trem e visita a cidade de Viena, na Áustria, dando luz a uma atmosfera espontânea e muito natural através da interpretação dos atores Ethan Hawke e Julie Delpy; na simples decisão de deixar a dupla à vontade no processo de montagem do roteiro, o faz realizar um trabalho diferenciado.

Os diálogos conduzem o filme e expõem pontos de vistas distintos, troca de informações, situações pessoais e a proximidade natural de duas pessoas que acreditam na magia que há na oportunidade de se conhecer alguém desconhecido que causa a impressão de ser legal e interessante no primeiro contato. Tudo acontece no período de um dia. É um tour em Viena, local muito bem escolhido com cenários históricos e bares noturnos. Acerta também em cenas finais do filme, repassando a câmera pelos locais, desta vez vazios, por onde os jovens estiveram na curta jornada. Fatalmente tudo conspirou para uma continuação de “Antes do Amanhecer”, logo após a despedida dos personagens, quando o elo é bruscamente rompido. Fica a dúvida se é possível um dia de reencontro do casal e como eles se comportariam diante da situação, após alguns anos. É pensando nisso que o diretor chama o tempo a seu favor e realiza a sequencia esperada, quase dez anos depois, no acaso de um reencontro.

“Antes do Pôr-do-Sol”, que é assunto para a próxima postagem.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Máfia e Cinema: uma combinação fascinante


Coincidentemente, a máfia italiana surgiu naquela ilha quando observada no mapa parece estar sendo chutada pela bota que geograficamente faz a forma da Itália: a Sicília.

Não se sabe ao certo, mas na versão do historiador americano Norman Lewis, em seu livro "A Máfia por Dentro", a confraria começou no século IX, quando os normandos dominaram os sarracenos, muçulmanos que viviam na Sicília.

Sem terras, muitos deles tornaram-se servos e outros lavradores se refugiaram nas montanhas. A ação se deu, primeiramente, contra os dominadores da maior parte daquela região.

Vandalismos com gados e plantações só eram sanados em acordo com os dissidentes, sempre prontos para negociar. A integridade dos senhorios que, até então desconheciam tal capacidade de afronto, estava ameaçada.

A alta rebeldia calculada não passava de um mero instrumento para a retomada do território.

Iniciava-se, assim, a prática da frieza sorrateira, dominadora e introduzida por uma comunidade composta de pessoas aparentemente dignas e religiosas.

A violência característica dos mafiosos se contrastava com os valores conservados pelas famílias. Aos poucos, a guerra passou a ser travada entre os próprios rebelados, o que culminou no aprimoramento e expansão das atribuições ilícitas.

Muito derramamento de sangue, justificado pela sustentação da honra e nutrido pela ideia fixa de poder. Foi isso que propagou pelo mundo todo e fez da ilha o berço desta organização criminosa tão peculiar.

Ao espalhar seus mandamentos para tudo quanto é lado, a máfia se firmou como um audacioso inimigo da sociedade de bem.


Gangsters


Famílias mafiosas apareceram com mais evidência no começo do século XX nos E.U.A e expandiram o legado de fidelidade, honra e vingança entre os modos ilegais das organizações criminosas fixadas no país das oportunidades.

Ganharam status, juntaram dinheiro e conquistaram influência junto ao poder público norte americano. Os gângsters se apresentaram como uma ameaça perniciosa às instituições americanas, as quais foram pouco a pouco sendo ludibriadas.


“Poder paralelo” no Cinema


O cinema retrata o histórico dos mafiosos na terra do “tio sam”, sob vários aspectos em diferentes épocas, com filmes baseadas em fatos reais ou ficção.

Elegância, gentileza, inteligência, religiosidade e, principalmente, lealdade, são adjetivos que camuflam a natureza de um povo frio, convicto de uma ganância capaz de construir verdadeiros impérios em trajetórias fascinantes.

Toda a simpatia da personalidade mafiosa é aproveitada como receita perfeita para a sétima arte explorar o glamour num cenário repleto de luxo e vaidade.

Uma combinação capaz de fazer o público mergulhar um pouco mais sobre o enigma humano, na junção curiosa de crime, poder, fé, família, honra, cumplicidade e prosperidade.

O cineasta Martin Scorsese foi quem mais abordou a relação deste modo patronal em sua obra, contando sempre com o ator Robert de Niro em “Caminhos Perigosos (1973)”, “Os Bons Companheiros (1990)” e “Cassino (1995)”, considerados ícones do gênero. Descendente de italiano, o diretor foi criado no bairro nova-iorquino Queens, próximo ao universo mafioso, o que explica essa tendência.

ABAIXO, O TRAILER DE "OS BONS COMPANHEIROS" (Goodfellas)



Em 1991, gangsters famosos ganharam as telas do cinema. Com direção de Michael Karbelnikoff, “Império do Crime” apresenta a história de quatro amigos (Charles "Lucky" Luciano, Meyer Lansky, Bugsy Siegel e Frank Costello), que entram no mundo do crime organizado, espalham terror e tomam conta do lado leste de Nova Iorque.

Benjamin Bugsy Siegel fundou o primeiro hotel em Las Vegas e também se transformou em filme no mesmo ano. “Bugsy”, interpretado pelo ator Warren Beatty e dirigido por Barry Levinson, ganhou vários prêmios, entre Oscar e Globo de Ouro.

ASSISTA AO TRAILER ABAIXO:



O mafioso mais conhecido do mundo não poderia ficar de fora. Al Capone chefiava o crime organizado e traficava bebidas no período da Lei Seca em Chicago, nos anos 30. Era praticamente impossível pegá-lo pela lei, graças as suas artimanhas e braços infinitos de influência. “Os intocáveis”, do diretor Brian de Palma, lançado em 1987, conta a história baseada em fatos reais, onde Eliot Ness (Kevin Costner), um jovem agente do FBI, tenta acabar com o reinado de Al Capone. Um clássico do gênero policial.

ASSISTA AO TRAILER LEGENDADO DE "OS INTOCÁVEIS" NA SEQUENCIA



“Donnie Brasco” é outro filme que exibe a perspicácia da “Cosa Nostra” pela ótica policial. Joe Pistone, vivido por Johnny Depp, é um agente do FBI infiltrado na máfia. Baseado em fatos reais, o longa exibe a amizade construída entre ele e o mafioso Left (Al Pacino), numa organização criminosa que entra em pé de guerra nos anos 70. O filme é 1997.

O TRAILER OFICIAL DE "DONNIE BRASCO" ABAIXO



Mas nenhuma outra obra teve a capacidade de retratar tão bem o máfia italiana nos E.U.A como a trilogia “O Poderoso Chefão”.

A saga da família Corleone é uma aula, não só de cinematografia, mas de vivência. Vito Corleone (Marlon Brando) é o Poderoso Chefão.

Basicamente um dos maiores clássicos da história do cinema, a trilogia reúne um conjunto bastante abrangente de ensinamentos. O cineasta Francis Ford Coppola se juntou ao escritor Mário Puzzo e realizou uma obra-prima incontestável. O diretor conseguiu revelar não só os êxitos obtidos por uma organização criminosa, mas também os percalços naturais de uma trajetória singular.

A história da família Corleone não obedece aos padrões de conduta, mas explora, categoricamente, o universo intrigante das relações humanas. Os conflitos familiares são fortemente apresentados entre as mazelas das práticas ilegais e todas as suas consequências.

Dom Corleone (Marlon Brando) utilizou de seu livre arbítrio para sobreviver e prosperar como qualquer cidadão com as poucas possibilidades oferecidas a ele, sem se sentir culpado perante a sociedade, afinal, ele é siciliano.

Seu filho Michael (Al Pacino) foi responsável por salvaguardar o que foi conquistado com tanta austeridade. Para completar a saga, a família Corleone teria de ser absolvida pela riqueza de sua própria história, neste mundo onde só os fortes sobrevivem.

NO VÍDEO ABAIXO, UM TRIBUTO À FAMÍLIA CORLEONE COM A TRILHA SONORA MARCANTE DE NINO ROTA



Reproduzir o universo mafioso ou apenas mitificá-lo. No conjunto de sua obra, Scorsese, por exemplo, priorizou a vida de pessoas próximas de seu habitat em seus trabalhos; trasformou sua observação em grandes filmes. Isso talvez seja também uma maneira de buscar respostas nos mais estranhos gestos e comportamentos.

O cinema pode ser mais que um entretenimento quando nos proporciona reflexão, exibindo, sem julgamento, o que chamam de politicamente incorreto. A lição está na curiosidade em entender um pouco mais sobe o onipresente lado negro da força.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Sustentados pelo merecimento


Uma mulher que muda bruscamente a vida de um homem. Situação corriqueira, mas que se torna original quando um romance tem a capacidade de superar obstáculos, não obstante a violência, pela necessidade de dar continuidade a uma bela e perigosa história de amor.

Roteiro de Quentin Tarantino, com direção de Tony Scott - o mesmo de “Top Gun - Ases Indomáveis” - Amor à Queima Roupa (True Romance), lançado em 1993, conta a história do balconista Clarence, interpretado por Cristian Slater, que trabalha em uma loja de revistas em quadrinhos. Clarence é um sujeito solitário, meio nerd e fã de Elvis Presley (Val Kilmer), de quem recebe delirantes conselhos durante o filme.

No dia de seu aniversário, ele conhece Alabama, vivida pela excelente Patrícia Arquette. Mesmo após descobrir que a moça foi mandada por seu patrão como presente de aniversário, ele se apaixona porque compartilham gostos: quadrinhos de super-heróis, filmes asiáticos de artes marciais e batata frita. Se conhecem no cinema e casam na manhã seguinte.

Até aí, normal. O problema é que a loira trabalha como garota de programa e vive sob a tutela truculenta de um cafetão. Com visual jamaicano pra lá de grotesco, cheio de cicatrizes no rosto e trejeitos assustadores, Gary Oldman dá vida curta ao criminoso Drexel Spivey.

Clarence talvez só contasse com a aparição de Alabama em sonhos bons e vai atrás de Drexel a fim de pegar os pertences da amada. Em meio a um tiroteio, o herói resgata uma mala cheia de cocaína pensando ser as roupas da garota.

Movidos pela oportunidade de transformar sonhos em realidade, os dois fogem com a encrenca para Hollywood, onde pretendem tentar passar a coca para algum barão do cinema, sem saber que tem uma quadrilha de violentos mafiosos italianos no encalço.

Dennis Hopper é o policial Clifford Worley, pai de Clarence. Durante a fuga, os pombinhos passam pela cidade onde ele mora e deixam pistas pelo caminho. Logo os sicilianos chegam ao casebre do tira com a intenção de tomarem informações quanto ao paradeiro dos aventureiros sonhadores.

Cristopher Walken é o chefe da trupe engravatada e trava com Hopper um diálogo simbólico sobre a origem dos sicilianos num embate interpretativo memorável entre dois mestres.

Na viagem animada pelas poeirentas estradas norte-americanas, de Detroit a Los Angeles, o público tem ainda a oportunidade de conhecer um drogado alucinado, vivido por Brad Pitt, entre outros atores consagrados que fazem pontas no filme, como Samuel L. Jackson, Tom Sizemor e James Godolfini.

Uma curiosidade: É o primeiro roteiro que Tarantino tentou vender, mas ninguém parecia ver algo interessante nele. Quando, de repente, uma montanha de astros de primeira grandeza ficou a fim de aparecer no filme sem cobrar cachês milionários.

Na seqüência para o epílogo, a torcida pela vitória da sutileza do casal é inevitável. Em meio a um banho de sangue, resta aos dois confiarem em suas intuições com a promessa de viverem um merecido conto de fadas, escrito nas estrelas.

Um longa repleto de energia e clímax, embutidos numa narrativa linear, no caso de "True Romance", que, aparentemente, seria simples demais para ser rodado.

Uma prova de que uma boa história pode ser filmada por outros diretores, mantendo, assim, a aura da genial estética pop singular de Tarantino.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Personagens entre o consumo e o combate


O consumo desenfreado de drogas nos anos 70 mobilizou a divisão de narcóticos da polícia estadunidense. Agentes infiltrados convivendo com a nata da bandidagem compartilhavam até seringas com os junks mais sinistros do pedaço, no mais variado consumo de entorpecentes.

Tática utilizada pelos cops para coibir o tráfico incessante naquele período, que gerou uma situação conflitante, onde o certo e o errado conviviam juntos, misturados. Uma ambiguidade fortemente retratada através do cinema em 1991.

Agentes que não deixavam de ser viciados, mas que trabalhavam no combate ao mal que se instalava por lá. Dois policias navegam num drama, em um ambiente de total degradação e incertezas, vivendo numa atmosfera soturna entre o ideal profissional e o necessário habitat dos drogados, em dois universos de certa forma distintos: crime e profissão.

“Rush - Uma Viagem ao Inferno”, dirigido por Lili Fini Zanuck, extrai a angústia de quem decide por intervir em um ambiente onde os fracos realmente não têm vez. O experiente tira Jim Raynor, vivido por Jason Patric, se mistura aos indivíduos barbudos e cabeludos que jogam sinuca e passam noites a fio embalados pelas drogas e ao som de Bob Dylan, Jimi Hendrix e Cia.ltda. A história se passa no sul dos E.U.A e invoca um certo estilo western.

Macaco velho, Jim é um agente infiltrado no submundo degradante comandado pelo traficante Gaines, interpretado por Gregg Allman, da banda de rock-blues setentista “The Allman Brothers”, calado e ressabiado sujeito que não dá trela às intenções do policial, que insiste em flagrar o maioral e acabar assim com o caso.

Jim ganha então uma companheira para que juntos possam alçapar o traficante. Jennifer Jason Leigh vive Kristen Cates, bela loirinha de aparência frágil, que decide se ingressar na brigada de narcóticos. A determinação de Kristen entra em conflito com a realidade voraz em que ela se insere. O preparo teórico nunca supre a necessidade prática.

Inicia-se assim um romance entre Kristen e Jim, pautado pelo drama. Ela aprende a usar drogas e fatalmente se vicia. Hora ele extrapola, hora ela se excede. Juntos seguram a barra e descobrem falcatruas de seus superiores. As atuações são ótimas. Até mesmo o limitado Jason Patric consegue ficar acima da média.

Super destaque para a sombria e aguda trilha sonora de Eric Clapton. A famosa “Tears in Heaven” é a música tema do longa, lançada para compor o álbum produzido para o filme.

Outra canção de Clapton inclusa na trilha é “Help me up”. O restante são canções instrumentais. Guitarras muito bem arranjadas com nuances melancólicas geniais de um dos melhores guitarristas da história. Além de um ótimo filme, “Rush” é também um excelente disco.

São bandidos e mocinhos entre dois universos conflitantes, que se aproximam até sair faísca.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um por todos, todos por um!!


Qual mensagem se tornaria marcante em um filme que se baseia num conto do escritor Stephen King, autor de “Cemitério Maldito” e “Colheita Maldita”, além das lembranças de uma passagem da vida em que os filmes de terror causavam tanto medo, compartilhado com os amigos em sessões de cinema ou na casa de algum camaradinha que ostentava um vídeo cassete?

Quem nasceu, pelo menos no começo dos anos 80 e gostava de assistir filmes, deve saber que o cinema feito para o público juvenil nessa década prezava por cada uma das amizades que começavam ali. “Indiana Jones”, “Os Fantasmas se Divertem”, “Os Goonies”, “Os Caça-Fantasmas”, “Inimigo Meu” e “De Volta para o Futuro” são apenas alguns exemplos de que a sétima arte é uma das responsáveis por não deixar romper a tênue linha que liga o passado ao presente.

Como se as lembranças remetentes aos mais nobres momentos da infância estivessem essencialmente ligadas à linguagem do cinema infanto-juvenil anos 80 e atreladas às descobertas conjuntas no então estabelecido ciclo de amizade.

Fica mais difícil construir amizades verdadeiras, como as que são feitas quando se tem 12 ou 13 anos. É por essa premissa que “Conta Comigo”, lançado em 1986, deixa sua marca. Dirigido por Rob Reiner, o bem aventurado drama, exibe talvez uma das mais bonitas demonstrações de amizade já vistas no cinema.

A história, baseada no conto "The Body", de Stephen King, mostra uma faceta humanizada do autor, à altura de sua genialidade como mestre do terror. É a obra mais pessoal de King - seu irmão morreu em um acidente de carro - assim como o personagem principal Gordie (Wil Wheaton), que se torna escritor.

O filme é narrado a partir das recordações de Gordie, que já adulto, está escrevendo um livro. No ano de 1959 quatro amigos moradores da pequena cidade americana chamada Castle Rock partem para uma daquelas inesquecíveis jornadas capazes de alterar a trilha dos acontecimentos vitais.

Chris Chambers (River Phoenix) é o líder e protetor da turma. Gordie (Wil Wheaton), contador de histórias e o mais sensível do grupo, faz uma emocionante parceria com Chris.

Vern (Jerry O'Connell) é um tanto quanto problemático e emocionalmente desequilibrado, e, o gordinho Teddy Duchamp (Corey Feldman), o mais infantil e iludido, é o responsável por avisar os amigos, após ouvir, por acaso, uma conversa sobre um garoto que estava desaparecido no meio da mata.

Querendo ser heróis aos olhos da cidade, eles partem numa inesquecível viagem de dois dias que se transforma em uma odisséia de autodescoberta.

Ao logo da aventura é possível identificar, de forma mais específica, a personalidade de cada um, transmitida pela extenuação das amarguras e problemas dos personagens.

Fica, portanto, a mensagem de que no apoio mútuo e solidário transparece a verdadeira insegurança diante das dúvidas que rondam os 12 anos de idade, no momento em que se tem a rara oportunidade de confiar na exata franqueza de quem está ao seu lado.

Na trilha sonora, a maravilhosa “Stand by me” (título original do filme), de John Lennon, na interpretação de Ben e King.

Não importa se você tem 10 ou 60 anos, Conta Comigo não atinge só as crianças. É um filme diferenciado, talvez pelo fato de retratar o amparo entre seres humanos, que vai se extinguindo conforme os anos vão se passando.

As pessoas acreditam que com o passar do tempo ficam mais independentes, mais fortes, por assim dizer. Mas eu acredito que não, que é importante sim, sempre poder contar comigo, contigo, com vós, com eles...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

"Os Bons Companheiros": politicamnte incorreto?


O talento do diretor Martin Scorsese dividiu as águas do cinema pop em 1990 com “Os Bons Companheiros”. Paradigmático, puxou a fila de filmes como “Pulp Fiction”, “Trainspotting”, “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e outros do mesmo gênero.

O já consagrado cineasta apresentou técnicas apuradas para a época. As tomadas em plano-sequência e o rítmo frenético desenrolam o longa. Os recursos utilizados na edição causam a impressão de que o filme é mais longo do que as duas horas e vinte cinco minutos de duração. A fotografia é primorosa.

Como não poderia ter sido diferente, deu tudo muito certo. A academia tanga frouxa fingiu não perceber a inovação e deu o Oscar à “Dança com Lobos” em 1991.

Scorsese não sabia que só ganharia o estatueta quase vinte anos depois com “Os Infiltrados”, ao dizer na época do lançamento de “Goodfellas”(título original), de que aquele filme de máfia protagonizado por Robert de Niro, Ray Liotta e Joe Pesci era sua grande aposta, entre toda sua obra, para levar a estatueta.

Como o Oscar não quer dizer nada, “Os Bons Companheiros” foi sucesso de crítica e público. Baseado em fatos reais ocorridos nas décadas de 60 e 70, o filme conta a história de Henry Hill (Ray Liotta), garoto pobre do bairro novaiorquino Brooklin, descendente de irlandeses, que sonha em se ingressar na máfia italiana. Logo os maiorais do pedaço se simpatizam por ele, mesmo não sendo carcamano e passam a tratá-lo com queridinho.

Na organização, Henry conhece o esquentadinho não, violento, Tommy de Vito (Joe Pesci) - vencedor do Oscar como melhor ator coadjuvante - e Jimmy Conway (Robert de Niro), mafioso de expressão, que lhe dá apoio e confiança para que ele cresça nos negócios. Eles tornam-se grandes companheiros, ou melhor, “Os Bons Companheiros”. Os personagens estão inseridos na camada inferior da hierarquia do crime organizado, o que não diminui a astúcia deles. Participam de grandes roubos e ganham muito dinheiro.

Os três constroem uma amizade sólida tanto na vida criminosa como na vida pessoal. Neste período, Henry acaba se casando, mas tem uma amante, que visita regularmente. Não consegue ser um membro efetivo, pois seu pai era irlandês. Se distancia dos negócios normais da máfia numa era onde os gângsteres tinham status de glamour, de luxo e ostentação. No auge do prestígio se envolve com o tráfico de drogas e entra na mira do FBI.

Destaque para o sarcasmo da cena em que eles passam pela casa da mãe de Tommy de Vito, após um crime.

Mesmo com a violência escancarada nas salas de cinemas o filme ainda choca, com imagens violentas, mas não explicitas, o que torna o filme uma aula de direção e roteiro.

A inteligência narrativa deste filme marca Scorsese como um dos melhores cineastas de sua geração. Pensando bem, ele não merecia mesmo levar o Oscar por essa obra-prima, concorrendo com “Dança com Lobos”.