terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Personagens entre o consumo e o combate


O consumo desenfreado de drogas nos anos 70 mobilizou a divisão de narcóticos da polícia estadunidense. Agentes infiltrados convivendo com a nata da bandidagem compartilhavam até seringas com os junks mais sinistros do pedaço, no mais variado consumo de entorpecentes.

Tática utilizada pelos cops para coibir o tráfico incessante naquele período, que gerou uma situação conflitante, onde o certo e o errado conviviam juntos, misturados. Uma ambiguidade fortemente retratada através do cinema em 1991.

Agentes que não deixavam de ser viciados, mas que trabalhavam no combate ao mal que se instalava por lá. Dois policias navegam num drama, em um ambiente de total degradação e incertezas, vivendo numa atmosfera soturna entre o ideal profissional e o necessário habitat dos drogados, em dois universos de certa forma distintos: crime e profissão.

“Rush - Uma Viagem ao Inferno”, dirigido por Lili Fini Zanuck, extrai a angústia de quem decide por intervir em um ambiente onde os fracos realmente não têm vez. O experiente tira Jim Raynor, vivido por Jason Patric, se mistura aos indivíduos barbudos e cabeludos que jogam sinuca e passam noites a fio embalados pelas drogas e ao som de Bob Dylan, Jimi Hendrix e Cia.ltda. A história se passa no sul dos E.U.A e invoca um certo estilo western.

Macaco velho, Jim é um agente infiltrado no submundo degradante comandado pelo traficante Gaines, interpretado por Gregg Allman, da banda de rock-blues setentista “The Allman Brothers”, calado e ressabiado sujeito que não dá trela às intenções do policial, que insiste em flagrar o maioral e acabar assim com o caso.

Jim ganha então uma companheira para que juntos possam alçapar o traficante. Jennifer Jason Leigh vive Kristen Cates, bela loirinha de aparência frágil, que decide se ingressar na brigada de narcóticos. A determinação de Kristen entra em conflito com a realidade voraz em que ela se insere. O preparo teórico nunca supre a necessidade prática.

Inicia-se assim um romance entre Kristen e Jim, pautado pelo drama. Ela aprende a usar drogas e fatalmente se vicia. Hora ele extrapola, hora ela se excede. Juntos seguram a barra e descobrem falcatruas de seus superiores. As atuações são ótimas. Até mesmo o limitado Jason Patric consegue ficar acima da média.

Super destaque para a sombria e aguda trilha sonora de Eric Clapton. A famosa “Tears in Heaven” é a música tema do longa, lançada para compor o álbum produzido para o filme.

Outra canção de Clapton inclusa na trilha é “Help me up”. O restante são canções instrumentais. Guitarras muito bem arranjadas com nuances melancólicas geniais de um dos melhores guitarristas da história. Além de um ótimo filme, “Rush” é também um excelente disco.

São bandidos e mocinhos entre dois universos conflitantes, que se aproximam até sair faísca.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um por todos, todos por um!!


Qual mensagem se tornaria marcante em um filme que se baseia num conto do escritor Stephen King, autor de “Cemitério Maldito” e “Colheita Maldita”, além das lembranças de uma passagem da vida em que os filmes de terror causavam tanto medo, compartilhado com os amigos em sessões de cinema ou na casa de algum camaradinha que ostentava um vídeo cassete?

Quem nasceu, pelo menos no começo dos anos 80 e gostava de assistir filmes, deve saber que o cinema feito para o público juvenil nessa década prezava por cada uma das amizades que começavam ali. “Indiana Jones”, “Os Fantasmas se Divertem”, “Os Goonies”, “Os Caça-Fantasmas”, “Inimigo Meu” e “De Volta para o Futuro” são apenas alguns exemplos de que a sétima arte é uma das responsáveis por não deixar romper a tênue linha que liga o passado ao presente.

Como se as lembranças remetentes aos mais nobres momentos da infância estivessem essencialmente ligadas à linguagem do cinema infanto-juvenil anos 80 e atreladas às descobertas conjuntas no então estabelecido ciclo de amizade.

Fica mais difícil construir amizades verdadeiras, como as que são feitas quando se tem 12 ou 13 anos. É por essa premissa que “Conta Comigo”, lançado em 1986, deixa sua marca. Dirigido por Rob Reiner, o bem aventurado drama, exibe talvez uma das mais bonitas demonstrações de amizade já vistas no cinema.

A história, baseada no conto "The Body", de Stephen King, mostra uma faceta humanizada do autor, à altura de sua genialidade como mestre do terror. É a obra mais pessoal de King - seu irmão morreu em um acidente de carro - assim como o personagem principal Gordie (Wil Wheaton), que se torna escritor.

O filme é narrado a partir das recordações de Gordie, que já adulto, está escrevendo um livro. No ano de 1959 quatro amigos moradores da pequena cidade americana chamada Castle Rock partem para uma daquelas inesquecíveis jornadas capazes de alterar a trilha dos acontecimentos vitais.

Chris Chambers (River Phoenix) é o líder e protetor da turma. Gordie (Wil Wheaton), contador de histórias e o mais sensível do grupo, faz uma emocionante parceria com Chris.

Vern (Jerry O'Connell) é um tanto quanto problemático e emocionalmente desequilibrado, e, o gordinho Teddy Duchamp (Corey Feldman), o mais infantil e iludido, é o responsável por avisar os amigos, após ouvir, por acaso, uma conversa sobre um garoto que estava desaparecido no meio da mata.

Querendo ser heróis aos olhos da cidade, eles partem numa inesquecível viagem de dois dias que se transforma em uma odisséia de autodescoberta.

Ao logo da aventura é possível identificar, de forma mais específica, a personalidade de cada um, transmitida pela extenuação das amarguras e problemas dos personagens.

Fica, portanto, a mensagem de que no apoio mútuo e solidário transparece a verdadeira insegurança diante das dúvidas que rondam os 12 anos de idade, no momento em que se tem a rara oportunidade de confiar na exata franqueza de quem está ao seu lado.

Na trilha sonora, a maravilhosa “Stand by me” (título original do filme), de John Lennon, na interpretação de Ben e King.

Não importa se você tem 10 ou 60 anos, Conta Comigo não atinge só as crianças. É um filme diferenciado, talvez pelo fato de retratar o amparo entre seres humanos, que vai se extinguindo conforme os anos vão se passando.

As pessoas acreditam que com o passar do tempo ficam mais independentes, mais fortes, por assim dizer. Mas eu acredito que não, que é importante sim, sempre poder contar comigo, contigo, com vós, com eles...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

"Os Bons Companheiros": politicamnte incorreto?


O talento do diretor Martin Scorsese dividiu as águas do cinema pop em 1990 com “Os Bons Companheiros”. Paradigmático, puxou a fila de filmes como “Pulp Fiction”, “Trainspotting”, “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e outros do mesmo gênero.

O já consagrado cineasta apresentou técnicas apuradas para a época. As tomadas em plano-sequência e o rítmo frenético desenrolam o longa. Os recursos utilizados na edição causam a impressão de que o filme é mais longo do que as duas horas e vinte cinco minutos de duração. A fotografia é primorosa.

Como não poderia ter sido diferente, deu tudo muito certo. A academia tanga frouxa fingiu não perceber a inovação e deu o Oscar à “Dança com Lobos” em 1991.

Scorsese não sabia que só ganharia o estatueta quase vinte anos depois com “Os Infiltrados”, ao dizer na época do lançamento de “Goodfellas”(título original), de que aquele filme de máfia protagonizado por Robert de Niro, Ray Liotta e Joe Pesci era sua grande aposta, entre toda sua obra, para levar a estatueta.

Como o Oscar não quer dizer nada, “Os Bons Companheiros” foi sucesso de crítica e público. Baseado em fatos reais ocorridos nas décadas de 60 e 70, o filme conta a história de Henry Hill (Ray Liotta), garoto pobre do bairro novaiorquino Brooklin, descendente de irlandeses, que sonha em se ingressar na máfia italiana. Logo os maiorais do pedaço se simpatizam por ele, mesmo não sendo carcamano e passam a tratá-lo com queridinho.

Na organização, Henry conhece o esquentadinho não, violento, Tommy de Vito (Joe Pesci) - vencedor do Oscar como melhor ator coadjuvante - e Jimmy Conway (Robert de Niro), mafioso de expressão, que lhe dá apoio e confiança para que ele cresça nos negócios. Eles tornam-se grandes companheiros, ou melhor, “Os Bons Companheiros”. Os personagens estão inseridos na camada inferior da hierarquia do crime organizado, o que não diminui a astúcia deles. Participam de grandes roubos e ganham muito dinheiro.

Os três constroem uma amizade sólida tanto na vida criminosa como na vida pessoal. Neste período, Henry acaba se casando, mas tem uma amante, que visita regularmente. Não consegue ser um membro efetivo, pois seu pai era irlandês. Se distancia dos negócios normais da máfia numa era onde os gângsteres tinham status de glamour, de luxo e ostentação. No auge do prestígio se envolve com o tráfico de drogas e entra na mira do FBI.

Destaque para o sarcasmo da cena em que eles passam pela casa da mãe de Tommy de Vito, após um crime.

Mesmo com a violência escancarada nas salas de cinemas o filme ainda choca, com imagens violentas, mas não explicitas, o que torna o filme uma aula de direção e roteiro.

A inteligência narrativa deste filme marca Scorsese como um dos melhores cineastas de sua geração. Pensando bem, ele não merecia mesmo levar o Oscar por essa obra-prima, concorrendo com “Dança com Lobos”.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A liberdade não tem destino


1969. No auge da cena Sexo, Drogas e Rock’n Roll surge “Easy Rider”, road movie ambientado bem na era da grande transformação política, comportamental, social, estilística, entre tantas outras que a geração coca-cola não teve a oportunidade de acompanhar em tempo real.

Impulsionando o movimento dos motoqueiros, hoje chamados motociclistas, “Sem Destino”, como é conhecido em português, é um ícone da contracultura.

Os protagonistas são dois motociclistas, Wyatt ou 'Capitão América' (Peter Fonda) e Billy ( Dennis Hopper). Fonda e Hopper disseram que estes dois personagens referem-se a Wyatt Earp e Billy the Kid. Wyatt veste-se de cabedal adornado com a bandeira americana, enquanto Billy se veste com calças e camisa ao estilo dos nativos americanos. A direção é de Hopper, a produção de Fonda e o roteiro, de ambos.

São dois doidarrões vindos sabe-se lá de onde. Os personagens pouco se falam, mas a honestidade transmitida pelos atores em forma de expressão corporal, principalmente de Hopper, é suficiente para ganhar, de cara, a simpatia do público.

Os dois amigos partem então de avião com destino ao México, onde compram uma porção de cocaína e voltam para os E.U.A, onde a droga é vendida. A grana levantada é usada rapidamente na compra de duas motocas incrementadas até para os dias de hoje. O troco é armazenado nas mangueiras dos tanques de gasolina das motos. Destino: Mardi Gras, o carnaval de New Orleans. Rota: 66.

Pessoas de diferentes procedências os acolhem no decorrer da aventura, desde camponeses em propriedades rurais até hippies em comunidades alternativas.

A surpresa fica por conta do então iniciante Jack Nicholson, no papel do advogado alcoólatra George Hanson, encarregado de tirar os malacos da cadeia, após serem presos por desobedecerem a ordem numa cidadezinha do interior.

Bêbado, o advogado arruma um capacetinho, monta na garupa de uma das motocicletas e embarca na viagem com eles - na cena em que ele consome maconha pela 1ª vez, fica claro, o cunho cômico que o filme também carrega.

Na trilha sonora, clássicos como “Born to be Wild” e “The Pusher”, da banda canadense Steppenwolf, além de “The Weight”, uma espécie de hino hippie. Puro rock setentista bem distribuído em uma hora e trinta e cinco minutos de duração.

A carga psicodélica e dramática é reservada para o final e traduz uma parcela conflitante da ideia do sonho americano, tão presente na mentalidade da geração que vivenciou a época e conseguiu romper paradigmas preconceituosos que persistiam nos anos 60, no momento em que a utopia ainda não fazia parte da ideologia Paz e Amor.

“Easy Rider” mudou a vida de muita gente, principalmente dos motoqueiros, que não se cansam de ouvir sempre as mesmas músicas há mais de 30 anos, em encontros promovidos pelo mundo todo.

A viagem “Sem Destino” ainda não terminou. Os motociclistas de hoje não me deixam mentir. Eles ainda carregam no coração, pelas estradas, a sensação de liberdade expressa em “Easy Rider”.