terça-feira, 23 de agosto de 2011

Máfia e Cinema: uma combinação fascinante


Coincidentemente, a máfia italiana surgiu naquela ilha quando observada no mapa parece estar sendo chutada pela bota que geograficamente faz a forma da Itália: a Sicília.

Não se sabe ao certo, mas na versão do historiador americano Norman Lewis, em seu livro "A Máfia por Dentro", a confraria começou no século IX, quando os normandos dominaram os sarracenos, muçulmanos que viviam na Sicília.

Sem terras, muitos deles tornaram-se servos e outros lavradores se refugiaram nas montanhas. A ação se deu, primeiramente, contra os dominadores da maior parte daquela região.

Vandalismos com gados e plantações só eram sanados em acordo com os dissidentes, sempre prontos para negociar. A integridade dos senhorios que, até então desconheciam tal capacidade de afronto, estava ameaçada.

A alta rebeldia calculada não passava de um mero instrumento para a retomada do território.

Iniciava-se, assim, a prática da frieza sorrateira, dominadora e introduzida por uma comunidade composta de pessoas aparentemente dignas e religiosas.

A violência característica dos mafiosos se contrastava com os valores conservados pelas famílias. Aos poucos, a guerra passou a ser travada entre os próprios rebelados, o que culminou no aprimoramento e expansão das atribuições ilícitas.

Muito derramamento de sangue, justificado pela sustentação da honra e nutrido pela ideia fixa de poder. Foi isso que propagou pelo mundo todo e fez da ilha o berço desta organização criminosa tão peculiar.

Ao espalhar seus mandamentos para tudo quanto é lado, a máfia se firmou como um audacioso inimigo da sociedade de bem.


Gangsters


Famílias mafiosas apareceram com mais evidência no começo do século XX nos E.U.A e expandiram o legado de fidelidade, honra e vingança entre os modos ilegais das organizações criminosas fixadas no país das oportunidades.

Ganharam status, juntaram dinheiro e conquistaram influência junto ao poder público norte americano. Os gângsters se apresentaram como uma ameaça perniciosa às instituições americanas, as quais foram pouco a pouco sendo ludibriadas.


“Poder paralelo” no Cinema


O cinema retrata o histórico dos mafiosos na terra do “tio sam”, sob vários aspectos em diferentes épocas, com filmes baseadas em fatos reais ou ficção.

Elegância, gentileza, inteligência, religiosidade e, principalmente, lealdade, são adjetivos que camuflam a natureza de um povo frio, convicto de uma ganância capaz de construir verdadeiros impérios em trajetórias fascinantes.

Toda a simpatia da personalidade mafiosa é aproveitada como receita perfeita para a sétima arte explorar o glamour num cenário repleto de luxo e vaidade.

Uma combinação capaz de fazer o público mergulhar um pouco mais sobre o enigma humano, na junção curiosa de crime, poder, fé, família, honra, cumplicidade e prosperidade.

O cineasta Martin Scorsese foi quem mais abordou a relação deste modo patronal em sua obra, contando sempre com o ator Robert de Niro em “Caminhos Perigosos (1973)”, “Os Bons Companheiros (1990)” e “Cassino (1995)”, considerados ícones do gênero. Descendente de italiano, o diretor foi criado no bairro nova-iorquino Queens, próximo ao universo mafioso, o que explica essa tendência.

ABAIXO, O TRAILER DE "OS BONS COMPANHEIROS" (Goodfellas)



Em 1991, gangsters famosos ganharam as telas do cinema. Com direção de Michael Karbelnikoff, “Império do Crime” apresenta a história de quatro amigos (Charles "Lucky" Luciano, Meyer Lansky, Bugsy Siegel e Frank Costello), que entram no mundo do crime organizado, espalham terror e tomam conta do lado leste de Nova Iorque.

Benjamin Bugsy Siegel fundou o primeiro hotel em Las Vegas e também se transformou em filme no mesmo ano. “Bugsy”, interpretado pelo ator Warren Beatty e dirigido por Barry Levinson, ganhou vários prêmios, entre Oscar e Globo de Ouro.

ASSISTA AO TRAILER ABAIXO:



O mafioso mais conhecido do mundo não poderia ficar de fora. Al Capone chefiava o crime organizado e traficava bebidas no período da Lei Seca em Chicago, nos anos 30. Era praticamente impossível pegá-lo pela lei, graças as suas artimanhas e braços infinitos de influência. “Os intocáveis”, do diretor Brian de Palma, lançado em 1987, conta a história baseada em fatos reais, onde Eliot Ness (Kevin Costner), um jovem agente do FBI, tenta acabar com o reinado de Al Capone. Um clássico do gênero policial.

ASSISTA AO TRAILER LEGENDADO DE "OS INTOCÁVEIS" NA SEQUENCIA



“Donnie Brasco” é outro filme que exibe a perspicácia da “Cosa Nostra” pela ótica policial. Joe Pistone, vivido por Johnny Depp, é um agente do FBI infiltrado na máfia. Baseado em fatos reais, o longa exibe a amizade construída entre ele e o mafioso Left (Al Pacino), numa organização criminosa que entra em pé de guerra nos anos 70. O filme é 1997.

O TRAILER OFICIAL DE "DONNIE BRASCO" ABAIXO



Mas nenhuma outra obra teve a capacidade de retratar tão bem o máfia italiana nos E.U.A como a trilogia “O Poderoso Chefão”.

A saga da família Corleone é uma aula, não só de cinematografia, mas de vivência. Vito Corleone (Marlon Brando) é o Poderoso Chefão.

Basicamente um dos maiores clássicos da história do cinema, a trilogia reúne um conjunto bastante abrangente de ensinamentos. O cineasta Francis Ford Coppola se juntou ao escritor Mário Puzzo e realizou uma obra-prima incontestável. O diretor conseguiu revelar não só os êxitos obtidos por uma organização criminosa, mas também os percalços naturais de uma trajetória singular.

A história da família Corleone não obedece aos padrões de conduta, mas explora, categoricamente, o universo intrigante das relações humanas. Os conflitos familiares são fortemente apresentados entre as mazelas das práticas ilegais e todas as suas consequências.

Dom Corleone (Marlon Brando) utilizou de seu livre arbítrio para sobreviver e prosperar como qualquer cidadão com as poucas possibilidades oferecidas a ele, sem se sentir culpado perante a sociedade, afinal, ele é siciliano.

Seu filho Michael (Al Pacino) foi responsável por salvaguardar o que foi conquistado com tanta austeridade. Para completar a saga, a família Corleone teria de ser absolvida pela riqueza de sua própria história, neste mundo onde só os fortes sobrevivem.

NO VÍDEO ABAIXO, UM TRIBUTO À FAMÍLIA CORLEONE COM A TRILHA SONORA MARCANTE DE NINO ROTA



Reproduzir o universo mafioso ou apenas mitificá-lo. No conjunto de sua obra, Scorsese, por exemplo, priorizou a vida de pessoas próximas de seu habitat em seus trabalhos; trasformou sua observação em grandes filmes. Isso talvez seja também uma maneira de buscar respostas nos mais estranhos gestos e comportamentos.

O cinema pode ser mais que um entretenimento quando nos proporciona reflexão, exibindo, sem julgamento, o que chamam de politicamente incorreto. A lição está na curiosidade em entender um pouco mais sobe o onipresente lado negro da força.

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