terça-feira, 1 de novembro de 2016

O cinema com o olhar sobre a nova sociedade brasileira



Dois grupos partidários se revezaram no poder nos últimos 15 anos e transformaram bruscamente o contexto político nacional, com a turbulenta guerra ideológica, que dividiu socialmente a população em dois extremos.

E a arte, neste caso a sétima arte, com seu importante papel de demonstrar sensibilidade, com um olhar humanista adequado para a nova situação que nos encontramos, vem trazendo às telas obras primas que marcam este novo tempo, esta nova sociedade brasileira.

É muito bom ver o cinema nacional produzindo obras importantes com grande fôlego, assumindo uma postura contundente e com forte apelo sobre a atual realidade cotidiana na qual estamos inseridos. Dois filmes me chamaram muito à atenção ao retratar a nova faceta do país. “Que Horas Ela Volta?” e o mais recente “Aquarius”. O primeiro, conta a história de uma aluna nordestina, que almejando chegar à universidade pública, muda-se para São Paulo e vai morar na casa dos patrões de sua mãe, o que gera situações inusitadas e dá margem a uma importante reflexão, sobre a nova emersão da classe menos favorecida. Há 20 anos era quase impossível uma estudante pobre buscar o crescimento intelectual e se colocar no mesmo patamar da classe média, com as mesmas oportunidades.

É através deste fenômeno social, desta mudança que o filme se sustenta e, subliminarmente, desperta à atenção do público ao revelar um novo cenário brasileiro. Trata-se de um filme aparentemente comum, mas surpreendente em termos de conteúdo. Acerta na mosca, ou melhor, na ferida, causando comoção ao abordar uma mera situação, compatível com todo esse novo painel desenhado pelo poder, pela política e pelos governos polarizados que vivenciamos nos últimos tempos.

Já “Aquarius” traz um enfoque diferente, mas também atual. Ganância de grandes construtoras, influências politicas e a força do capital, contra a preservação da memória, da manutenção do romantismo artístico, da arquitetura antiga, e no confronto entre tecnologias novas e velhas, do disco vinil e o MP3. Sônia Braga é Clara, uma jornalista aposentada, viúva, e mãe de três filhos. Em seu apartamento antigo, onde mora sozinha, de frente com a praia de Boa Viagem no Recife, ela guarda recordações com sua coleção de discos, álbuns de fotografia e livros. O prédio onde mora a personagem principal está na mira de uma empreiteira, a qual compra todos os apartamentos menos o de Clara, que insiste em permanecer no imóvel e nega qualquer proposta do jovem empreendedor Diego, que pretende construir um novo prédio no local. “Quando não gosta é velho, quando gosta é vintage”, a frase de efeito de Clara é lançada à sua filha, quando ela tenta convencer a mãe a vender o AP. O filme se aproxima de um painel completo do Brasil, ao abordar família, arte e política e retrata delicadamente um resquício de coronelismo nordestino, de como a classe dominante arquiteta seus planos para atender seus interesses.

O Fla x Flu político fica distante da realidade quando cega grande parte da população para as mazelas atuais e os avanços que os brasileiros conquistaram. Produções cinematográficas tão valorosas tiram os tampões dos nossos olhos e é capaz de fazer refletir e entender como a sociedade sofre e se desenvolve ao longo dos anos. O Cinema como elemento educacional é capaz de nos trazer exatamente para o centro da nossa verdadeira identidade, mostrando onde é possível evoluir e como é primordial combater o interesse individual, e construir uma nova nação com senso social crítico e coletivo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Antes do Amanhecer

Uma numerosa e eclética filmografia traduz o olhar humanista do diretor americano de cinema Richard Linklater, que se debruça sobre meras situações cotidianas que se transformam em excelentes histórias, pois fisga a empatia do público para com os personagens, características que fazem dele um cineasta de peso.

A simples observação em deixar os atores improvisarem alguns diálogos, mostra o dom de Linklater de escolher muito bem o elenco. O casal que passa um dia juntos num encontro inusitado num vagão de trem e visita a cidade de Viena, na Áustria, dando luz a uma atmosfera espontânea e muito natural através da interpretação dos atores Ethan Hawke e Julie Delpy; na simples decisão de deixar a dupla à vontade no processo de montagem do roteiro, o faz realizar um trabalho diferenciado.

Os diálogos conduzem o filme e expõem pontos de vistas distintos, troca de informações, situações pessoais e a proximidade natural de duas pessoas que acreditam na magia que há na oportunidade de se conhecer alguém desconhecido que causa a impressão de ser legal e interessante no primeiro contato. Tudo acontece no período de um dia. É um tour em Viena, local muito bem escolhido com cenários históricos e bares noturnos. Acerta também em cenas finais do filme, repassando a câmera pelos locais, desta vez vazios, por onde os jovens estiveram na curta jornada. Fatalmente tudo conspirou para uma continuação de “Antes do Amanhecer”, logo após a despedida dos personagens, quando o elo é bruscamente rompido. Fica a dúvida se é possível um dia de reencontro do casal e como eles se comportariam diante da situação, após alguns anos. É pensando nisso que o diretor chama o tempo a seu favor e realiza a sequencia esperada, quase dez anos depois, no acaso de um reencontro.

“Antes do Pôr-do-Sol”, que é assunto para a próxima postagem.